domingo, 22 de março de 2009

Rádio Cabeça


Vi pela primeira vez, na vida, o show do Radiohead nessa sexta-feira. Confesso que nunca fui fã da banda, conhecia eles mais pelo "Creep" da minha adolescência, por um download gratuito de "In Rainbows" e pelo gigantesco "hype" em volta da banda considerada a maior e mais importante banda de rock do planeta do momento. Fiquei curioso para assistir o show, mas no fundo, contra tudo e contra todos, queria ver mesmo o Kraftwerk, considerado o pai da música eletrônica pop e paralelamente o avô do funk carioca, eles já tinham vindo ao Brasil algumas vezes, mas não tive a sorte de assistir.
Quando moleque, sempre fui roqueiro, sempre tive banda de rock, sempre amei rock. Porém o rock "deprê", arrastado, triste e londrino nunca fez a minha cabeça. Gostava mesmo de porrada, heavy metal e rock n' roll: Iron Maiden, Sepultura, Hendrix, AC/DC, Pantera, Guns n' Roses, Lynyrd Skynyrd, Alman Brothers, Raul Seixas, ... Tenho que confessar, o que pode parecer "menor" da minha parte, mas nunca, nem mesmo o Beatles bateu forte no meu peito.
Depois, já mais velho, mergulhei na música brasileira de cabeça: Cartola, Noel, Jobim, Dorival, Chico, Caetano, Gil, Choro em geral, Edu Lobo, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, ... Esse mergulho na música brasileira me fez fazer a ponte para o Jazz e a vontade de estudar música na Berklee (meca dos jazzistas acadêmicos). Lá mergulhei em três universos: Jazz, Música Clássica e música experimental (eletrônica, de concerto, de banda, ...).
Escrevi isso para mostrar que passei batido pelo Radiohead, pelo "Kid A" e pelo "ok Computer". Estava naquelo momento no ponto mais esnobe e preconceituoso da minha formação musical, achava rock música de "garoto" e nada para mim poderia superar meu "Deus" do momento John Coltrane, tudo que não fosse "Coltrane" para mim era "menor", só se salvavam alguns grandes compositores clássicos como Stravinsky e Debussy, e alguns outros. Que prentensão a minha! A academia tem um poder muito grande de tornar o estudante de música em medíocre e fechado para qualquer coisa que ela não aprove. Tenho que confessar: É muito difícil para o músico de "escola" se libertar desses gigantescos preconceitos! Muitos se encontram presos mesmo anos depois de sua formatura!
Enfim... Cheguei no show, primeiro vi o Los Hermanos que foi literalmente "garfado", com um P.A. de merda, não entendo como os grandes eventos ainda mantém essa filosofia de manter o som das bandas de abertura infinitamente inferior ao da banda principal. Não posso comentar sobre um show que não ouvi nem o baixo nem a bateria. O show do Kraftwerk foi impecável, importante do ponto de vista histórico e muito enriquecedor pois quero trabalhar com imagens nas minhas apresentações "ao vivo", mas achei apenas isso.
Já o Radiohead foi um tapa na minha cara, um soco no meio do meu nariz e uma joelhada no meu saco. Não só foi o melhor show de rock que vi na minha vida como foi um dos sons mais bonitos que já presenciei. O show foi impecável, os timbres de guitarra, rhodes, vibrafone, voz, eletrônicos, ... eram de uma beleza e profundidade quase glacial que me fizeram ficar realmente emocionado. O espetáculo de luzes e telões fez o Kraftwerk realmente se colocar no lugar e tempo deles, não querendo diminuir o maravilhoso trabalho dos alemães. As músicas são lindas, me fez ter vontade de naquele momento devorar os discos "Ok Computer' e "Kid A" que não conhecia. Me fez sentir um "bobo" de algum dia ter tido algum preconceito com o rock. Estava diante de uma obra-prima que não tem rótulos, aquilo era música, na sua mais profunda essência. Assimilei profundamente o brilhante texto do Dapieve sobre o Radiohead no dia do evento: Essa banda é para ser ouvida com tempo em um tempo onde as pessoas não tem mais tempo para ouvir música! Tive vontade de ouvir mais música, me dar o tempo necessário para assimilar canções e discos, respirar um pouco no meio desse turbilhão de "hypismos" onde o que menos se ouve é música. Obrigado Radiohead! Pare de ler esse post e vá ouvir um disco inteiro! ;)

14 comentários:

Lonha disse...

Aquele cigarro e o Kid A inteiro com um bom fone de ouvido é, definitivamente, uma bela experiência! Emocionante!

Que shows! que noite! FODA!

Divirta-se com as novas experiências com o Radiohead meu caro João!

João Brasil disse...

Farei isso com certeza Mr. Lonha! Muito obrigado pelo toque! Abração!

ana carol disse...

agora tou aqui pensando se eu vou me sentir assim quando tiver a oportunidade de assistir a um show do radiohead..eu tenho o Kid A e o Ok computer, mas eu nunca achei nada demais...comprei impulsionada pelo hype e eu até acho que é um som bem produzido, tem qualidade, uma ou outra música bonita, mas eu não consigo venerar da maneira que todo mundo venera... (na verdade eu acho kid A até melhor que o Ok computer...)mas sei lá...eles são muito deprimentes...talvez seja porque eu ainda sou adolescente, hahaha
acho que a melhor comparação que eu posso fazer do radiohead é com uma cereja...é até uma frutinha gostosa, mas além de eu comer uma vez na vida,se não existisse eu tb não ia sentir falta...
eu acredito que a música exerce sentimentos muito fortes nas pessoas, e apesar de o som deles ter uma beleza, é uma beleza muito melancólica, e eu não gosto de ouvir algo que me traga esse sentimento...tem momentos que até rola, mas porra, ficar ouvindo isso o tempo todo é pra se matar logo hahaha... eu queria poder dizer que acho o som deles uma bosta, mas sei lá, eu não consigo achar totalmente ruim... eu ainda vou assistir a um show deles pra formar um conceito melhor... por enquanto acho que ainda continuo um pouco na adolescencia :)

nathany disse...

João..
Obrigada por descrever parte da sensasão que eu senti ao cantar e me encantar com o show do Radiohead aqui em SP, deeeemais!

Por estanho que pareça, comprei o ingresso logo quando começou a vender, pensando em Los Hermanos (que sou fanática e concordo plenamente contigo sobre a putaria que fizeram).. mas nesse curto período de tempo mergulhei em Radiohead e pirei, mas pirei total.. não só no In Rainbows como em OK Computer e claro.. Pablo Honey!

O show dos caras foi feroz..


nathany
(rodamorta.wordpress.com)

Diana Gondim disse...

Oi João! Muito bom o seu texto, fico muito feliz por você ter "descoberto" o Radiohead! E por ter sentido as mesmas coisas que eu durante esse show maravilhoso que tivemos a linda oportunidade de presenciar! Um dia pra ficar na história =)

prazer e bjs!

Paulo Sattamini disse...

clap clap clap clap!

Sensacional meu caro JayBi.

abrasssss

Satta

Bruno Eduardo disse...

Sou fã, vi o show de sp e n consigo descrever tudo que senti lá e ainda sinto qnd lembro do show. Mas uma coisa, nunca me senti triste escutando radiohead, acho isso algo q as pessoas q n param pra ouvir usam como desculpa.

ana carol disse...

Bruno Eduardo:

talvez um dia então eu descubra a vibe super alto astral, alegre e dançante de uma no surprises ou de um karma police ou de uma paranoid android da vida... a propósito,uma amiga minha adora chupar limão e ela me diz sempre que não consegue sentir o gosto do azedo... eu já chupei muito e sempre achei azedo..quantas vezes será que eu vou precisar chupar mais pra pensar como ela?
beijos!

Bruno Eduardo disse...

bela comparação ana, tem total relação. Falei no sentido de generalizar, usar esse rotulo na banda q n acho certo. e só pq uma música num tem uma "vibe super alto astral, alegre e dançante" nã quer dizer que ela é melancólica, ou que dê vontade de se matar. Pra mim rola muito "vibe" por causa da melodia, do vocal(as vozes do thom são muito bonitas), tem toda a produção(no caso do show), a letra e por aí vai.
mas tudo bem, esse é tipo de discussão que não tem fututo.

ana carol disse...

cara, eu sabia que se eu citasse 2 ou 3 exemplos eu daria brecha pra esse argumento de "a banda não se resume só a essas músicas"...mas como eu disse antes, eu tenho 2 discos do radiohead, conheço muitas músicas de outros discos da banda e posso dizer que a banda pode não se resumir a esses 3 singles, mas como certeza consiste nisso... de kid a e ok computer então, acho que a de "vibe mais alegre" é idioteque... agora essa coisa de rotular então não tem nem o que ser discutido, tudo na vida é assim meu caro, até eu e você somos rotulados por alguém através daquilo que nós transparecemos... rótulos não surgem do nada, certo?
mas enfim,eu acho o radiohead, uma boa banda sim, mas que o som deles tem uma vibe melancólica, isso é fato..você como apreciador desse tipo de música pode não se sentir tão atingido por essa energia por talvez já estar acostumado...é como quem chupa limão demais e acaba nem percebendo o gostinho do azedo? hihihih, viu que a minha comparação faz sentido?
tchau, essa discussão não tem futuro mesmo, nisso eu concordo com você!vou ouvir agora meu tropical mix wachadoing, passar bem!

João Brasil disse...

Hahaha! Vcs tão que tão hein!? O que disse foi que quando era adolescente as bandas inglesas, lentas e deprês nunca me fizeram a cabeça! Nunca disse que o Radiohead é deprê! Eles tem várias músicas lentas que são lindas e são 0% depressivas, pelo contrário, te puxam até para cima. E mesmo se fossem, não tem problema nenhum em serem assim, isso não tira o mérito da beleza das composições. Mas com certeza entendo mais isso agora do que no passado! Valeu Nathany, Diana, Paulo, Bruno e Carol! Abs.,

ana carol disse...

ah peraí...vamo ser fã, mas bom senso sempre, né? dizer que ouvir radiohead puxa até pra cima, já ta apelando... como assim 0% depressiva? qualquer pessoa é capaz de distinguir uma melodia de música triste de uma alegre...e isso não é questão de idade, não precisa ter entendimento de música, ter “ouvido apurado” ou fazer uma análise profunda... tristeza e alegria não é questão de gosto ou de quem “não para pra ouvir”,vai ser sempre aquilo ali independente da forma como você ta assimilando...


e outra, eu tenho certeza que a intenção do radiohead não é mesmo ser uma banda de vibe alegre... a primeira música que os caras escolheram pra representa-los já demonstra bem isso: “sou um rastejante, sou um esquisito, que diabos faço aqui? não pertenço a esse lugar”... não importa quantas mil músicas eles tem mais além dessa, até porque tem várias outras com letras tão depressivas quanto...e não é só questão de letra não, nos próprios clipes o jeito que o Thom Yorke interpreta ele transmite a dor e a angustia tanto na expressão facial quanto na voz....enfim, ele consegue dar um ar melancólico mesmo nas músicas com letras normais... se pegar uma banda como os smiths, que tipo MUITA gente considera eles uma banda melancólica, aí eu vou discordar... realmente os caras tem várias músicas com letra e vibe melancólica, mas o Morrissey não faz da melancolia a forma de cantar, a melodia, os clipes.... muito pelo contrário! tem músicas deles com letra super down só que o ritmo é tão pra cima, e ele sempre tem aquela coreografiazinha pra embalar tb, que quem não manja de inglês, por exemplo, nem vai imaginar que ele ta falando de algo triste... já o radiohead, manjando ou sem manjar, a vibe que eles passam é sempre associado a tristeza... fazer belas canções melancólicas tem mérito, mas é um mérito bem limitado.. pensando melhor, acho que o que acontece é que a maioria dos adolescentes não tem paciência nem estado de espírito pra ficar admirando por muito tempo coisas que não tenham tanto significado quando ainda se é jovem...(especialmente se for uma jovem baladeira e praieira igual a mim HAHAHAHA) enfim, geralmente quando as pessoas vão ficando mais velhas, levam algumas porradas da vida, o estado de espírito vai se tornando de uma certa forma mais melancólico talvez até mesmo pela saudade da juventude, e aí músicas do tipo radiohead começam a fazer mais sentido...agora eu sinceramente, espero continuar adolescente pelo resto da vida... e agora é tchau de verdade porque esse assunto já deu!!!!!

Bruno Eduardo disse...

uhauhauhauhauhauahuaha
a ana escreve, viu!! O João falou bem o que eu queria dizer, o que me fez comentar aqui é achar que música lenta é necessariamente melancolica. Sei que vc tem os cds, mas acho que por questão de gosto mesmo(ou talvez falta de paciencia, de jovem uahauhau tenho 25 anos, tb sou jovem!) vc não alcançou a idéia, e falo isso sem nenhum sentido pejorativo, sério. O resumo é que o radiohead, pra mim, n fica restrito a determinados momentos, música pra isso ou música praquilo. E num é pq todo mundo rótula que vamos aceitar....
vlw ana, joão, foi legal a conversa :D

ana carol disse...

eu sempre me empolgo fio, nem repare hihihihih
foi massa a conversa,acho que esse é o tópico mais bombado do blog hahaha, até a próxima! :D